Aspiração e desencanto

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Em sua história, a pessoa humana tem aspirações profundas, no desejo de plena realização, e experimenta desencantos diante do que, negativamente, acontece na vida. A aspiração por algo mais, sob qualquer aspecto, é inerente à condição humana; se isso não se faz presente, seguramente, há um dado que precisa ser identificado, uma vez que a indiferença não é compatível com a psicológica humana. Todavia, é preciso estar-se atento a respeito das próprias aspirações, sob pena de se chegar ao desencanto quando não se consegue chegar aonde se esperava ou obter o que se desejava.

Santo Agostinho (séc. V), filósofo, teólogo e pastor, trata desse assunto. “Eis aquilo que devemos desejar. Se vivermos e acreditarmos naquele que ressuscitou, Ele nos dará não aquilo que, nesta vida, é desejado por quantos não amam a Deus, tanto mais desejado quanto menos Deus é amado. O que é que Deus nos prometeu? Certamente não riquezas terrenas e temporais, honras e poderes deste mundo. Tudo isso é concedido também aos malvados e não é tido em conta pelos homens bons. Tampouco a própria saúde corporal, que Ele concede também aos animais. Tampouco uma vida longa. Que vida é tão longa que, em determinado momento, não deva cessar? Tampouco prometeu, a nós que cremos, longevidade ou uma longa velhice, que todos desejam, antes que chegue, e de que nos queixamos, após sua chegada. Tampouco a beleza corporal, frustrada pela doença ou pela suspirada velhice. As ambições da beleza e de uma longa velhice são discordantes. Se tu alcançares a velhice, não mais serás belo: não podem coexistir o vigor da beleza e o gemido da velhice. Não nos prometeu tudo isso aquele que disse: ‘Quem tem sede venha a mim, conforme a palavra da Escritura, rios de água viva jorrarão de seu seio’ (Jo 7, 37-38). Deus, antes, prometeu-nos a vida eterna, em que não teremos mais nada a temer, em que não haverá mais perturbações nem motivos para dela sermos afastados. Na vida eterna, não mais morreremos, não mais choraremos os mortos nem mais suspiraremos quem chegue”.

O instinto de conservação revela-se na vida de cada pessoa, de muitas formas e em contextos muito diversos. O desejo da longevidade é uma linguagem da aspiração que tem o ser humano de viver o máximo possível. Quem não conhece pessoas que, mesmo numa enfermidade grave, expressam seu desejo de continuar vivendo? Porventura, desejar a longevidade – “antes que chegue” – não é também a linguagem da aspiração de jovens e adultos de hoje? Por acaso, são poucas pessoas idosas de hoje que se queixam de “sua chegada”? Também hoje “beleza” e “longa velhice” continuam sendo realidades “discordantes” na mente e na conduta das pessoas. Para elas, isso é uma fator de muito desencanto. Não é uma coisa simples a assimilação da fragilização do próprio corpo humano, causada “pela doença ou pela suspirada velhice”, por parte de quem está vivendo a condição de ex: miss universo, cientista renomado, político poderoso, plebeu desconhecido… “Apesar da debilidade e modificação física e biológica, a pessoa idosa é imprescindível para a nossa sociedade porque traz sua experiência de vida, sonhos, fé e esperanças. O ser humano e neste caso o idoso aspira por uma vida de sentido”.

O jovem e o adulto de hoje devem alimentar suas legítimas aspirações e, de forma amadurecida, enxergar a longevidade que, em si, não causa desencanto quando devidamente vivida.

Dom Genival Saraiva
Administrador Apostólico da Arquidiocese da Paraíba

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