A memória do Valentina é construída através das batalhas que os primeiros moradores e comerciantes travaram para transformar a região em um dos maiores polos econômicos de João Pessoa. No início dos anos 2000, o cenário era completamente diferente do atual: o bairro sofria com o preconceito, a infraestrutura era extremamente precária e o poder público parecia ignorar o grito de socorro de quem acordava cedo para trabalhar. É hora de abrir o baú do passado, relembrar essas cobranças históricas e entender como o descaso daquela época moldou o nosso presente.

O Início de Tudo: O Apelo Histórico de 2003
Em 11 de setembro de 2003, nascia a primeira edição da Folha do Valentina – Jornal do Comerciante. Seu fundador, Petrucio Prado, colocou nas páginas daquela edição inicial um apelo redigido às pressas, motivado pela indignação e pela urgência do momento. Recém-saído do setor bancário, o plano original de Petrucio não era se envolver em polêmicas políticas, mas sim mostrar para a Grande João Pessoa a força de um bairro promissor que, infelizmente, era muito discriminado fora de seus limites.
A realidade, no entanto, bateu à porta de forma avassaladora. Os comerciantes locais se queixavam diariamente da falta de atenção da prefeitura, forçando o jornal a se tornar a voz ativa de uma comunidade negligenciada.
O Drama do Mercado Público e a Realidade do Lamaçal
A principal ferida aberta do bairro na época era o antigo Mercado Público. Desde a década de 1980, feirantes e clientes enfrentavam uma rotina humilhante sempre que o período de chuvas se aproximava.
O Sofrimento em Dias de Chuva
-
Estrutura Precária: O mercado operava sem o mínimo de saneamento ou pavimentação adequada.
-
O Lamaçal Constante: Fregueses e comerciantes eram obrigados a caminhar em meio à lama, o que afastava a clientela e destruía as mercadorias.
-
Prejuízos Acumulados: Sem apoio para escoar os produtos, muitos trabalhadores viam o sustento de suas famílias minguar a cada tempestade.
Posteriormente, o comércio local acabou se instalando em uma nova estrutura do antigo Bompreço (ou Balaio, como a comunidade carinhosamente chamava). Embora tenha ocorrido uma melhora gradativa ao longo dos anos, o processo de transição trouxe novos e severos problemas sociais para o coração do Valentina.
A Importância da Memória do Valentina Contra as Drogas
Quando as antigas estruturas externas foram desocupadas para a centralização das atividades no Balaio, vários boxes ficaram completamente abandonados. Esse vácuo de poder e de fiscalização resultou em uma ocupação desordenada da área. Preservar a memória do Valentina envolve também lembrar dos momentos difíceis para que eles não se repitam.
A Mistura Entre a Necessidade e a Vulnerabilidade
No início, o local foi ocupado por famílias de bem que realmente precisavam de assistência e moradia digna. Contudo, a ausência do Estado abriu margem para a chegada de infiltrados. Com eles, o tráfico de drogas começou a se instalar gradativamente no coração da comunidade.
Essa mudança abrupta e a falta de políticas sociais cobraram um preço alto: muitos adolescentes do bairro acabaram se perdendo nesse caminho. Manter viva a memória do Valentina é lembrar daqueles jovens conhecidos da vizinhança, vistos anos antes brincando e se divertindo em celebrações tradicionais da nossa cultura.
A Nostalgia do Bloco Peruas do Valentina
Uma das maiores marcas de alegria do bairro era o tradicional bloco carnavalesco Peruas do Valentina. Nas festividades, a comunidade se unia em clima de total descontração. Ver aqueles mesmos meninos, que antes sorriam na multidão dos blocos de rua, serem tragados pela criminalidade na vida adulta tornou-se uma das lembranças mais dolorosas para os pioneiros da região.
A Luta Contra os Abusos e o Sufocamento Fiscal
As queixas contra a prefeitura de João Pessoa não ficavam restritas ao Mercado Público. O comércio formal sofria com a desordem urbana generalizada e a total falta de planejamento, algo que ficou marcado na memória do Valentina e de seus comerciantes tradicionais.

O Abandono do Setor Produtivo
-
Invasão de Espaços Públicos: Barracas irregulares começaram a tomar conta de praças, laterais de colégios e portas de igrejas.
-
Concorrência Desleal: Estruturas eram montadas diretamente em frente aos estabelecimentos comerciais legalizados, impedindo o fluxo de clientes.
-
Prejuízos para Negócios Pioneiros: Empresas familiares tradicionais da época, como a Bytegames e a Spynet, além da própria Folha do Valentina, foram as que mais sofreram com esse cenário caótico.
Sem o amparo do poder municipal, os empreendedores e suas famílias precisaram recorrer ao Ministério Público para tentar garantir o direito básico de trabalhar em paz. O sentimento geral da época era de que o poder público esmagava quem gerava empregos através de uma carga tributária violenta. Impostos e mais impostos eram cobrados sem que houvesse qualquer contrapartida em serviços, segurança ou infraestrutura, forçando dezenas de comércios a fecharem as portas em pouco tempo.
*Imagem meramente ilustrativa mostrando os comerciantes locais na época da primeira edição da Folha do Valentina, lançada em 11 de setembro de 2003.*](https://tvjampa.com/wp-content/uploads/2026/05/Abatedouro-peixaria-Maringa-Folha-do-Valentina-Petrucio-Prado-TV-JAMPA-1-1024x502.jpg)
Trajetória de Superação: Quem Faz a História do Bairro
Por trás do jornalismo comunitário, há uma história de muita resiliência acadêmica e profissional. Durante os anos 1990, Petrucio Prado conciliava sua carreira bancária com os estudos. Iniciou o curso de Química Industrial na UEPB, em Campina Grande, mas por exigências e pressões do banco onde trabalhava, precisou abandonar o curso para cursar Ciências Contábeis no UNIPÊ.
A rotina exaustiva de viagens entre cidades e o desgaste profissional acabaram gerando um profundo desânimo, levando-o a interromper o curso de Ciências Contábeis no quinto período. Durante esse período, foi transferido pelo banco para Recife, onde ingressou na Faculdade Boa Viagem. No entanto, devido às diferenças na grade curricular, precisou retornar ao quarto período. Apesar dos desafios, não desistiu de sua formação acadêmica. Anos mais tarde, encontrou sua verdadeira vocação na área da saúde, retornando aos estudos para graduar-se em Biomedicina e concluir uma pós-graduação em Hematologia, Urinálises e Parasitologia.
Essa bagagem de vida e a vivência prática das dificuldades dão a autoridade necessária para cobrar, de forma justa, as melhorias que o Valentina ainda necessita.
O Apelo Direto a Cícero Lucena: A Esperança que se Renova
O fechamento daquela histórica primeira edição de 2003 trazia uma carta aberta direta ao prefeito Cícero Lucena. O texto cobrava a promessa de governos anteriores sobre a tão sonhada reforma geral do nosso mercado. A comunidade depositava seu voto de confiança nos projetos apresentados pelo gestor, solicitando a intervenção urgente da Autarquia Especial Municipal de Limpeza Urbana (ENLUR) para solucionar os problemas de limpeza e infraestrutura.
Naquele período, embora não se soubesse o número exato de eleitores, a memória do Valentina já registrava uma força gigante, impulsionado por um crescimento acelerado que também transformava todos os bairros circunvizinhos. A comunidade aguardava respostas concretas e decisivas do poder público. Hoje, com a região em um patamar de desenvolvimento infinitamente maior, o jornalismo comunitário se reativa para apurar o que mudou de verdade. Em breve, uma nova reportagem trará o depoimento dos comerciantes antigos que resistiram ao tempo e dos novos empreendedores que estão começando agora.
Petrúcio Prado – TV JAMPA – Jornal Jampa Notícias